Ser um bom médico
16 jun., 2026
João Calangro

Em algum lugar do passado eu desejei ser um bom médico. Também já pensei em desistir da medicina muitas vezes, especialmente enquanto era aluno. Porém pergunto-me o que é ser um bom médico. É acertar diagnósticos? Num certo passado, dizia-se que um médico era bom se unisse conhecimento a uma capacidade profunda de observação e uma imaginação pouco convencional. A imagem do investigador arguto capaz de adivinhar quase tudo sobre um caso particular apenas com a observação silenciosa de pistas sutis foi popularizada e eternizada por Arthur Conan Doyle na transição do século 19 para o 20 na figura de Sherlock Holmes, considerado o mais popular personagem da ficção de todos os tempos. Doyle, um cirurgião escocês aficionado pela fantasia de Jules Verne (aprendeu francês sozinho - ou quase - lendo os livros de sua mãe quando criança) e pelas histórias de detetive de Edgar Alan Poe, inspirou-se em seu professor de Edimburgo, Joseph Bell. Parte de uma geração de médicos europeus que se notabilizou pela capacidade teatral de observação e dedução, Bell era famoso por saber a procedência, profissão, hábitos e patologia dos pacientes com pouquíssima informação, às vezes apenas observando-os. Essa imagem idealizada de “diagnosticador” permanece até hoje na imaginação popular como ideal da mente do investigador clínico.  Porém, o que isso realmente significava na época de Doyle? Desconhecedores das bases modernas da patologia, farmacologia e epidemiologia das doenças, as pessoas da época estavam à mercê de doenças hoje preveníveis e tratáveis que, então, eram letais e de tratamentos muitas vezes sem eficácia. O próprio Bell desenvolveu uma voz aguda e estranha e mancava por ter contraído difteria ao tentar aspirar secreções das vias aéreas de uma criança doente, além de ter perdido a esposa ainda jovem para a tuberculose. Mesmo assim, os poderes de dedução de Bell impressionavam colegas, alunos e leigos. Uma de suas filhas diria que seu pai, que gostava de adivinhar detalhes sobre passageiros desconhecidos em suas viagens de trem, “parecia um mágico”. Um dos alunos de Joe Bell, um homem no mais comum, precocemente viúvo e que criava como podia um escocês de posses medianas suas filhas e filho, católico que semanalmente estava na missa, chegou a denominá-lo de “super-homem”. Certamente, o próprio Bell teria trocado admiração, elogios e até mesmo todo o seu conhecimento para ter acesso a uma vacina que impedisse a morte de crianças por difteria, também chamada na época de morbus stragulatorius (sempre o mortificava vê-las), assim como sua própria doença. Além de um tratamento eficaz para a doença de sua esposa, hoje tratável de forma banal. E tantas outras modalidades de prevenção e tratamento disponíveis hoje em dia. O bom médico diagnosticador da época de Doyle atravessou mais de um século e acabou sendo a imagem usada para criar o médico Gregory House, da série de TV americana House, M.D. de 2004. David Shore, escritor e criador de seriados, diz que inspirou-se em suas experiências como paciente em um hospital escola, onde tinha certeza que os profissionais faziam pouco dele pelas costas, decidindo criar um personagem que fazia isso na cara do paciente. House, cujo melhor amigo ingênuo atende por Wilson, manca, é viciado em opióide e comicamente rude. Shore, fã de Doyle, confirmou que o personagem e sua história foram livremente inspirados em Holmes. Criado inicialmente para ser um seriado de caso da semana, como os policiais, mas com doenças e germes no lugar de criminosos. Mas como, no dizer de um dos produtores, bactéria não tem personalidade, o foco da série passou a ser o médico problemático e cheio de idiossincrasias, algo como um louco genial. Na verdade, a série uniu clichês batidos e crítica à arrogância dos médicos, fazendo bastante sucesso. E alimentando novamente a lenda do “bom médico”, o “gênio diagnosticador”. Porém, uma série como essa realmente ilustrava o processo mais comum de diagnóstico da maioria dos pacientes? Não. Shore admitiu que House foi uma paródia criada para criticar os médicos e o sistema de saúde americano. Do meu ponto de vista, observando famosas séries médicas como ER, Gray’s Anatomy, House e a recente The Pitt, suponho que ocorreu uma lenta evolução na quantidade dessa crítica social, porém com uma enorme distância ainda de algo que realmente ilustre a cruel realidade do sistema de saúde capitalista nos EUA. Além disso, a rotina de caso da semana em House forçava a apressar a conclusão dos diagnósticos de forma artificial e totalmente irrealista. O clichê recorrente do momento de diagnóstico, tal e qual um “eureka”, incluía sempre o mesmo olhar repetitivo do protagonista e uma mudança dramática da música, muitas vezes seguidos de uma corrida (excruciante para o personagem, que sofria de dor crônica e andava com dificuldade) de House pelos corredores do hospital para administrar na última hora (ou impedir de fazê-lo, quando era o errado) o medicamento curativo. Não preciso falar que, do ponto de vista estritamente científico, a maioria daqueles casos da série não era grande coisa. Mesmo assim, os produtores e Shore declararam que buscaram inspiração para os casos na coluna Diagnosis, publicada no New York Times a partir de 2002 pela Dra. Lisa Sanders, do Yale-New Haven Hospital, e nos artigos para a revista The New Yorker escritos pelo jornalista Clarence Berton Roueché Jr. a partir dos anos 40, sobre mistérios médicos.