Em algum lugar do passado eu desejei ser um bom médico. Também já pensei em desistir da medicina muitas vezes, especialmente enquanto era aluno. Porém pergunto-me o que é ser um bom médico. É acertar diagnósticos?
A algum tempo atrás, dizia-se que um médico era bom se unisse conhecimento a uma capacidade profunda de observação e uma imaginação pouco convencional. A imagem do investigador arguto capaz de adivinhar quase tudo sobre um caso particular apenas com a observação silenciosa de pistas sutis foi popularizada e eternizada por Arthur Conan Doyle na transição do século 19 para o 20 na figura de Sherlock Holmes, considerado o mais popular personagem da ficção de todos os tempos. Doyle, um cirurgião escocês aficionado pela fantasia de Jules Verne (aprendeu francês sozinho - ou quase - lendo os livros de sua mãe quando criança) e pelas histórias de detetive de Edgar Alan Poe, inspirou-se em seu professor de Edimburgo, Joseph Bell. Parte de uma geração de médicos europeus que se notabilizou pela capacidade teatral de observação e “dedução” (indução, na realidade), Bell era famoso por saber a procedência, profissão, hábitos e patologia dos pacientes com pouquíssima informação, às vezes apenas observando-os. Essa imagem idealizada de “diagnosticador” permanece até hoje na imaginação popular como ideal da mente do investigador clínico.
Porém, o que isso realmente significava na época de Doyle? Desconhecedores das bases modernas da patologia, farmacologia e epidemiologia das doenças, as pessoas da época estavam à mercê de doenças hoje preveníveis e tratáveis que, então, eram letais e de tratamentos muitas vezes sem eficácia. O próprio Bell desenvolveu uma voz aguda e estranha e mancava por ter contraído difteria ao tentar aspirar secreções das vias aéreas de uma criança doente, além de ter perdido a esposa ainda jovem para a tuberculose. Mesmo assim, os poderes de dedução de Bell impressionavam colegas, alunos e leigos. Uma de suas filhas diria que seu pai, que gostava de adivinhar detalhes sobre passageiros desconhecidos em suas viagens de trem, “parecia um mágico”. Um dos alunos de Joe Bell, um homem no mais comum, precocemente viúvo e que criava como podia um escocês de posses medianas suas filhas e filho, católico que semanalmente estava na missa, chegou a denominá-lo de “super-homem”. Certamente, o próprio Bell teria trocado admiração, elogios e até mesmo todo o seu conhecimento para ter acesso a uma vacina que impedisse a morte de crianças por difteria, também chamada na época de morbus strangulatorius (sempre o mortificava vê-las), assim como sua própria doença. Além de um tratamento eficaz para a doença de sua esposa, hoje tratável de forma banal. E tantas outras modalidades de prevenção e tratamento disponíveis hoje em dia.
O bom médico diagnosticador da época de Doyle atravessou mais de um século e acabou sendo a imagem usada para criar o médico Gregory House, da série de TV americana House, M.D. de 2004. David Shore, escritor e criador de seriados, diz que inspirou-se em suas experiências como paciente em um hospital escola, onde tinha certeza que os profissionais faziam pouco dele pelas costas, decidindo criar um personagem que fazia isso na cara do paciente. House, cujo melhor amigo ingênuo atende por Wilson, manca, é viciado em opióide e comicamente rude. Shore, fã de Doyle, confirmou que o personagem e sua história foram livremente inspirados em Holmes. Criado inicialmente para ser um seriado de caso da semana, como os policiais, mas com doenças e germes no lugar de criminosos. Mas como, no dizer de um dos produtores, bactéria não tem personalidade, o foco da série passou a ser o médico problemático e cheio de idiossincrasias, algo como um louco genial. Na verdade, a série uniu clichês batidos e crítica à arrogância dos médicos, fazendo bastante sucesso. E alimentando novamente a lenda do “bom médico”, o “gênio diagnosticador”. Porém, uma série como essa realmente ilustrava o processo mais comum de diagnóstico da maioria dos pacientes? Não. Shore admitiu que House foi uma paródia criada para criticar os médicos e o sistema de saúde americano.
Do meu ponto de vista, observando famosas séries médicas como ER, Gray’s Anatomy, House e a recente The Pitt, suponho que ocorreu uma lenta evolução na quantidade dessa crítica social, porém com uma enorme distância ainda de algo que realmente ilustre a cruel realidade do sistema de saúde capitalista nos EUA. Além disso, a rotina de caso da semana em House forçava a apressar a conclusão dos diagnósticos de forma artificial e totalmente irrealista. O clichê recorrente do momento de diagnóstico, tal e qual um “eureka”, incluía sempre o mesmo olhar repetitivo do protagonista e uma mudança dramática da música, muitas vezes seguidos de uma corrida (excruciante para o personagem, que sofria de dor crônica e andava com dificuldade) de House pelos corredores do hospital para administrar na última hora (ou impedir de fazê-lo, quando era o errado) o medicamento curativo. Não preciso falar que, do ponto de vista estritamente científico, a maioria daqueles casos da série não era grande coisa. Mesmo assim, os produtores e Shore declararam que buscaram inspiração para os casos na coluna Diagnosis, publicada no New York Times a partir de 2002 pela Dra. Lisa Sanders, do Yale-New Haven Hospital, e nos artigos para a revista The New Yorker escritos pelo jornalista Clarence Berton Roueché Jr. a partir dos anos 40, sobre mistérios médicos.
Li parte dos casos da Dra. Sanders no NYT e, realmente, são exemplos interessantes e bem relatados de patologias reais, sua repercussão no dia a dia de pessoas comuns e o processo de diagnóstico e tratamento. São realistas, tem linguagem acessível e são satisfatórios de ler como literatura. Em um artigo de 2019 de Aidan Gardner para o NYT, o jornalista diz que a Dra. Sanders foi uma criança precoce da Carolina do Norte, fascinada por Arthur Conan Doyle e Sherlock Holmes. Ela própria era jornalista e trabalhava para grandes canais de notícias, como ABC e CBS, onde chegou a ganhar um Emmy por uma reportagem sobre o Furacão Hugo de 1989. Atraída por histórias sobre medicina e cansada da rotina jornalística, conta-se que ela presenciou um colega (também médico) salvar a vida de uma pessoa após um acidente com um barco. Decidiu, então, ser médica também, sendo aceita na Yale. Aliás, o hospital ficcional onde House trabalha (Princeton-Plainsboro) foi inspirado no Yale-New Haven, onde Sanders trabalha até hoje. A abordagem para escrita médica da Dra. Sanders pode muito bem ser resumida adequadamente pelo título do seu livro mais popular, “every patient tells a story”. Isso contrasta com a premissa principal e mote “everybody lies” de House. Ela escreve para o NYT desde 2002, até hoje também.
O show House, M.D. tem várias referências às histórias de Holmes, a começar pelo nome do protagonista. O poder de observação focado em detalhes aparentemente banais, o uso de psicologia e raciocínio indutivo, a relutância de House em assumir casos que não lhe interessassem, gostos musicais (House toca guitarra no lugar do violino de Holmes), uso de drogas, o nome do melhor amigo (Wilson e Watson) e até o endereço de House (221B Baker Street). Vários episódios de House fazem alusão a personagens e fatos retirados da obra de Doyle (House é baleado por um Moriarty, simula sua própria morte, entre outros). Wilson dá um livro de Joseph Bell de presente para House, traçando uma identificação direta e circular entre o personagem moderno e o médico real que inspirou Holmes. Muito já se explorou essas interseções: o seriado resgata o mito do “bom médico” como um diagnosticador teatral notabilizado pelo uso quase “mágico” da observação. Um prestidigitador da medicina. O show encerou em 2012, mas ainda está disponível em plataformas de streaming. Um série sobre a Dra. Sanders foi lançada em 2019.
Começamos no início do século XX e avançamos 100 anos de uma vez. Certamente, o imaginário do “bom médico” hoje em dia (2026) ainda não mudou. Nada disso, nestes tempos de modernidade líquida e hipermodernidade, House (e Bell com ele) está praticamente esquecido, embora exista uma chance de uma redescoberta fugaz dele no futuro breve. Apesar da fama, quando coloco Holmes no buscador do Google hoje, as primeiras respostas se referem a um sistema de automação de processos focado em RH, o personagem não aparece uma única vez na primeira página. Então, fica interessante observar como tem evoluído a imagem (fale de memes, agora) do “bom médico” nestes longos poucos anos. Porém, vou brevemente investigar se houveram outros personagens médicos inspirados em Holmes entre 1927 (último ano de uma publicação de Doyle sobre o detetive) e 2004.
A pesquisa inicialmente trouxe o nome do esquecido Marcus Welby, M.D. (1969 a 1976) cujo título remete de imediato ao show do House, mas não tinha absolutamente nada a ver. Estrelado por Robert Young, um ator famoso na época por protagonizar o otimismo americano dos anos 70, na vida privada um alcoólatra depressivo com histórico de tentativa de suicídio. Mas o show, assim como muitos outros populares naquela década, era sobre empatia e afeto, muito embora incluísse todos os preconceitos da época. Um dos episódios, que tinham o formato “a doença da semana”, era sobre um personagem homoafetivo. Outro personagem lembrado pela pesquisa foi o Dr. Benjamin Franklin “Hawkeye” Pierce, da série M*A*S*H (1972 a 1983), inspirado no livro de H. Richard Hornberger (que não gostou da série), cirurgião das forças armadas americanas durante a guerra da Coréia. Novamente, outro estilo completamente diferente. Hawkeye era um personagem sarcástico, durão, porém de coração mole, um clichê que essa performance ajudou a cristalizar (a série até hoje detém o recorde de audiência por episódio, era extremamente popular). Pessoalmente, acho Hawkeye um precursor do estilo do Dr. Leonard “Bones” MacCoy (“Magro”, em português) de Star Trek. Uma terceira série de livros, filmes, rádio e até quadrinhos sugerida foi a do Dr. Kildare e Dr. Gillespie, nos anos 1930 e 1940, também sem relação direta com Doyle e Holmes. O autor pseudônimo Max Brand (Frederick Schiller Faust, um autor de westerns) criou o personagem do jovem aspirante a cirurgião Kildare, criado numa fazenda, estudante e depois residente em NY, que se envolve com o submundo do crime. Depois de transformado em filme, surgiu o personagem do Dr. Gilespie, “diagnosticador”, mentor do jovem, no estilo sensato ranzinza com coração de ouro, por sugestão da produtora de cinema, para ser o contraponto. Vivido por um Lionel Barrymore realmente preso a uma cadeira de rodas, seu estilo me lembra vagamente o professor Charles Xavier.
Na literatura, não encontrei nenhum exemplo com essa premissa (médico diagnosticador inspirado em Holmes/Bell), o que é meio surpreendente, pois Sherlock Holmes talvez seja o personagem mais imitado de toda a história. Pelo menos tem o prêmio Guinness de recordista de adaptações (mais de 250). Todavia, não faltam detetives ou equivalentes inspirados em Sherlock Holmes por aí, na literatura e nas telas (como o Patrick Jane de The Mentalist, série que foi ao ar entre 2008 e 2015 e a recente Antonia Scott da trilogia de Juan Gómez-Jurado, 2018 a 2020, adaptada também para as telas), mas não encontrei médicos inspirados em Holmes, como o House. Olhei rapidamente a literatura e mídia visual latino-americana, sem encontrar referências. Existem muitos médicos famosos na ficção da América meridional, como o Dr. Juvenal Urbino de O Amor nos Tempos do Cólera (confesso que não li o livro de Márquez) e o Dr. Seixas de Olhai o Lírio dos Campos (li a obra de Érico Veríssimo, uma coleção completa hoje perdida, na minha infância e adolescência). Nenhum deles é um detetive ou diagnosticador e, em geral, servem ao propósito de discussão social e psicológica, materializando o contraste entre elitismo e ganância contra simplicidade e abnegação. O Dr. Seixas me impressionou em especial, talvez dando-me um modelo inconsciente da conduta reta na medicina. H. Francisco me relembra que Seixas é o personagem estóico que busca viver de forma justa e simples, seco e às vezes cruel, mas sempre dedicado à aliviar o sofrimento. Para a geração de hoje, diz, equivale a Nanami Kento do mangá/anime Jujutsu Kaisen. Antes de encerrar, é necessário citar, ao menos de passagem, os exemplos de médicas e médicos das novelas brasileiras, a maioria mais enquadrando-se no clichê de “galã” do que tendo alguma atuação clínica real, como o neurocirurgião César Andrade de Mulheres Apaixonadas. Houveram exemplos diferentes, como as médicas Marta e Cristina de Mulher, ginecologistas numa trama que falava de machismo, Molina e Miss Brown (?!) de Barriga de Aluguel, que protagonizaram a dicotomia entre humanismo e ciência “dura”, o espírita Dr Alberto de A Viagem e até um cientista louco, Dr Albieri de O Clone (na época da Dolly). O papel dos “médicos da Globo” parecia mais ser “da Globo” do que serem médicos. Exceção (honrosa?): a crítica ao SUS embutida no seriado dublê de ER (antecipando um pouco The Pitt?) Sob Pressão. Voltando ao tema principal, do qual me afastei (por um bom motivo, ficará claro). O passado, então, não nos dá outros exemplos do mesmo alcance de médicos distintamente inspirados em Holmes (e Bell). Será mesmo que este “ideal” de “bom médico” tem fundamento? Quando eu era aluno de medicina, os nossos professores mais famosos também eram “diagnosticadores teatrais”, performando o que era julgado como proezas intelectuais. Na verdade, eles apenas tinham uma memória muito boa, quase fotográfica, alguns deles citavam capítulo e página dos livros onde estava a informação que eles declamavam de cor. Já naquela época, isso não me impressionava demais, pois qual era a diferença entre estas demonstrações de memória elefantina e os feitos anedóticos de saltimbancos mnemônicos e idiot savants? Na cidade do interior onde minha mãe morou na juventude (contava ela) havia um mendicante, uma pessoa “simples” (hoje seria claramente reconhecido como autista), mas que memorizou a data de aniversário e endereço de, virtualmente, todos os habitantes da cidade, e ia cantar-lhes os parabéns de manhã cedo à sua porta, em troca de alguma comida ou pouco dinheiro. Os “bons médicos” da minha época de estudante não passavam, na verdade, de computadores humanos que hoje não poderiam superar a mais simples IA. Eles entregavam uma longa lista de dignósticos diferenciais a serem testados e afastados, até que se descobrisse a verdade (se isso ocorresse). Porém, no que isso realmente é tão diferente de Bell e House? O método indutivo funciona assim mesmo, e faltava a meus professores a performance de adivinhar os detalhes da vida alheia apenas por pistas sutis, mas isso não os diminuía diante dos alunos. Assim, o bom médico nos anos 90 na minha cidade, antes de internet, redes sociais e aprendizado de máquina, tinha sim algo ainda vindo dos tempos dos prestidigitadores e detetives médicos do tempo de Bell.
Lembro vividamente que colegas jovens se comparavam ao House na época em que a série fazia sucesso. Isso chamava minha atenção, pois eu já tinha uma noção de que, na verdade, House não foi um personagem construído para ser modelo ou herói, estava mais para anti-herói. E como evoluiu essa imagem de “bom médico” nos últimos 14 anos? Como já expressei, a geração atual mal lembra (se lembrar) do House. Uma renascença de séries do início do século (The Mentalist está bem popular no meu país nesse momento) e de histórias de investigação me faz crer que um resgate da fama do chato e sarcástico House pode ser iminente. Vamos, porém prosseguir analisando um fenômeno recente, um “meme médico” protagonizado por uma pessoa farsante. Vamos falar da Dra. Julia Attene. É muito difícil encontrar menções a ela fora do eX-Twitter,e encontrei uma definição dada pelo Grok a uma postagem já deletada em 14/10/2025: “A Doutora Julia Attene é uma figura meme no MedTwitter brasileiro, retratada como uma médica infalível e sábia, frequentemente como “deusa” ou santa em ilustrações. Surgiu como homenagem humorística a uma suposta médica falecida, usada para ironizar diagnósticos complexos ou genialidade na medicina. Não há confirmação de que seja uma pessoa real histórica.” Já no Google, a pesquisa movida por IA retorna uma resposta diferente. “A ‘Dra. Júlia Attene’ foi uma persona fictícia de uma suposta médica atuando em Unidade Básica de Saúde (UBS) que viralizou em redes sociais por relatar casos clínicos extremamente complexos e raros. A conta compartilhava rotinas médicas fantasiosas e diagnósticos mirabolantes em atendimentos básicos. Usuários da internet descobriram que a dona do perfil não era médica, mas sim biomédica, e que os relatos de atendimento eram fictícios.” A busca, porém, não retornou ligações verificáveis nessa pesquisa.
