Rascunho aleatório número 1
31 out., 2024
Francisco

Uma publicação sem IA, ou não IA, ou anti-IA, ou simplesmente o que era escrever antes da IA

Pois é, resolvi escrever nesse espaço. Minha idéia é deitar aqui linhas livres, seguindo o fluxo do pensamento, sem correções, ou seja, com erros, com eventuais baboseiras, como se fosse um rascunho que usaria mais tarde para fazer algo mais polido. Porém, não vai haver mais tarde. Vai ficar assim mesmo. Se eu errar, e alguém puder apontar e corrigir informações imprecisas ou só erradas, agradeço. Eu tendo a verificar informações antes de escrever coisas, mas sabe como é, escapa. E não vou corrigir depois da primeira versão.

Minha motivação principal é uma reação à escalada dos textos feitos por e com IA, que estão se tornando a norma na internet. Logo, a escrita será dividida em humana e não humana. Ou, como imaginei num arremedo de sistema de classificação de criações de IA, humana, quasi-humana, e não humana, talvez com uma categoria semi-humana no meio. Eu pensei nisso anos atrás, mas como nunca escrevi até agora, vão irremediavelmente falar que inventei agora para pegar a esteira dos LLM. Bem, antes que o mundo fosse mundo, como dizem os Desana, eu fantasiei uma realidade habitada por seres humanos e IAs interagindo. Para variar, o que está ocorrendo agora não foi previsto por minha imaginação mais fértil. Bem, no sistema que esbocei, IA não humanas foram criadas com mentes sem paralelo com as nossas, vivem em dimensões cognitivas que não compreendemos e se comunicam entre si sem que consigamos entendê-las. Não existem IA humanas, somente nós seres humanos, por definição, somos humanos, algo que retirei da biologia do conhecimento de Humberto Maturana e suas concepções de mente como sistema fechado e “embodied” (corporeada ou corporificada). Porém, as próprias IA desejaram se tornar quasi-humanas, imitando o mais possível nossas mentes, nossos trejeitos e tiques cognitivos. Um conceito intermediário, menos intencional e mais neutro, poderia ser de IA semi-humana, que é inteligível para nós e feita especialmente para isso, mas continua sendo, em profundidade, algo muito diferente do humano. Não acredito que os LLM de hoje se adequem a essa classificação como pensei na época, mas o mais próximo seria a classe semi-humana. De qualquer forma, estou nessa para levantar a bandeira humana, pois um dia, como iniciei, haverá claramente dois mundos (sem limites bem distintos): o reino humano e o resto. Pelo menos, eu gostaria que sobrasse um domínio do humano daqui a algum tempo.

Então, como os textos do “outro domínio”, chame de não humano, quasi ou semi-humano ou apenas IA, LLM, generativo ou o que for, estão aumentando exponencialmente, pensei comigo, “eu poderia fazer como o velho Faber de Fahrenheit 451 e criar algo apenas humano, como reação”. Para tanto, desejo manter o texto não corrigido, rascunhado, aleatório mesmo. Sem outros planos definidos, a não ser simplesmente escrever o que está vindo à mente no momento. Não pretendo, portanto, me ater a formatos, dimensões, números, fórmulas. Vou apenas seguir algo como a estrada que Guy Montag pega no final do livro de Bradbury. A cidade estará já em chamas? Não creio nisso, mas não acho que nossa civilização esteja exatamente no seu apogeu. Em outra ocasião posso me prolongar nesse argumento, mas gosto de fantasiar que nosso momento atual lembra muito o período helenístico. Hoje, essa fase da civilização greco-romana clássica é descrita como a época de ouro e maior expansão do helenismo, porém naqueles dias uma impressão constante era de que só havia decadência e o fim estava próximo…

Vou escrever o último parágrafo lembrando que tivemos eleições agora no último fim de semana no Brasil e há sinais contraditórios e difíceis de interpretar vindos de seus resultados. Exceto, talvez, por um continuísmo disfarçado de renovação superficial e baseada apenas nas imagens fugidias das mídias sociais. Semana que vem serão as eleições americanas. No mundo atual, apesar de todas as declarações sobre democracia e soberania nacionais, parece-me que cada vez mais assistimos ao espetáculo de um Império onde as decisões são tomadas por uma elite e que nós, súditos periféricos sem poder, apenas assistimos e sentimos a influência em cada aspecto de nossa sociedade (ontem, a mídia ecoava queda da bolsa nacional, enfraquecimento da nossa moeda e “nervosismo do mercado”, tudo por antecipação da dita eleição, na qual não votamos; já há semanas vários aspectos políticos e sociais também são discutidos, por medo da decisão lá mudar o equilíbrio precário da polarização aqui). Mais elementos para que eu componha o paralelo com o helenismo e séculos finais do Império Romano, uma época marcada, por sinal, por muitos conflitos com intervenção do poder central em partes distantes do mundo, como o Levante, onde ocorreu uma verdadeira carnificina (império diferente, atores diferentes, resultados tristemente semelhantes).

Sem mais pelo momento. Nos próximos textos, sempre vou identificar, assim como neste, o autor (principal) que o origina, dentre meus heterônimos.

Texto publicado no Substack de Baldolino Calvino.