Joan Didion, uma jornalista californiana do século XX e início do século XXI, ficou instantaneamente conhecida pela crítica e pelo grande público (nesses tempos em que escrevo, isso significa a maioria da população mundial que costuma ler livros) após publicar seu livro “O Ano do Pensamento Mágico”, em 2005 (a tradução para o português por Paulo Andrade Lemos saiu em 2006). Porém, ela já era uma celebridade nos círculos da cultura norte-americana, embora sua época de maior evidência tenha sido nos anos 70-80. Segundo conta o ator e cineasta americano Thomas Griffin Dunne (mais conhecido fora dos EUA por ter estrelado “Um lobisomem americano em Londres”, quem diria), sobrinho de Didion, ela certa vez deu uma festa onde compareceu Janis Joplin, entre outras personalidades cult da época. Sabendo que seu sobrinho, então com 12 anos, idolatrava Joplin, fez questão que ele fosse levado por seus pais. Griffin fala que até hoje relembra cada detalhe desta experiência extraordinária, embora ache que a maior parte dos presentes lá não lembrou de nada, de tão chapados. Joan Didion e seu marido John Dunne, Joan e John, os Didion-Dunne como eram chamados, foram por 40 anos um casal perfeito no meio da cultura americana em ebulição na época e viviam de costa a costa, da Califórnia a Nova Iorque. Um exemplo interessante de sua imersão em Hollywood era a amizade com Harrison Ford, desde que ele era carpinteiro. Ford ampliou a biblioteca e a casa deles em Malibu.
“Entendi algo que até então não podia compreender, e é que a gente não se pode permitir ser uma alma em sofrimento” (Vanessa Redgrave vendo um album com Didion na época em que estrelava a peça derivada da opus magnum da escritora, a propósito de sua perda pessoal, a filha falecida).
Fonte: Elisa Fernández-Santos, El País

Eu li “O Ano do Pensamento Mágico” em português poucos anos após seu lançamento. E reli recentemente em inglês, o original. A tradução foi boa no sentido de se tornar quase invisível, a experiência não muda ao ler nas duas línguas. As resenhas no Brasil falaram das frases iniciais do livro, “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente.” (“Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.”), constatando como Didion tratou a própria tragédia pessoal como uma tarefa jornalística, narrando os fatos “sem pieguice” (o que é mesmo ser e não ser piegas?) e com “frieza cirúrgica”. Esse trecho, pescado praticamente por todas os textos, às vezes traz a primeira das quatro frases, a segunda mais esquecida: “A vida muda rápido.” (“Life changes fast.”). Porém, nunca vi citarem a quarta frase da introdução, sempre oculta: “A questão da autopiedade” (“The question of self-pity.”). Esse estilo jornalístico de lançar mão de frases curtas, como manchetes ou chamadas rápidas, running heads, foi usado à profusão por Didion. As primeiras quatro frases do livro são oferecidas dessa forma, e Didion segue imediatamente esclarecendo que aquelas foram as primeiras palavras escritas por ela após o ocorrido: seu marido morrera subitamente.
“The Year of Magical Thinking” é, assim, um livro de luto. E o que o diferencia de outras obras menos conhecidas, aparentemente (como não li outras obras nesse “gênero”, não opino eu mesmo), não é apenas o fato de ter sido escrito por uma jornalista e escritora muito permeável para famosos americanos (escritora da Vogue, colunista da Life, fez roteiros importantes para Hollywood com o marido John), mas seu estilo, como repetido ad infinitum, frio porém envolvente, lúcido e sem pieguice. Didion começa o livro justamente anunciando essa característica jornalística, mostrando que fará uma narrativa pessoal, um diário, porém de forma desapaixonada e distanciada, como se observasse a si mesma para compor uma reportagem a ser publicada em uma de suas colunas. É justamente porque ela falha nisso que o livro é bom. Seu estilo é seco e fotográfico, tentando ser um registro linear, começando por citar o editor de texto que usou e a data (e hora) listadas pelo sistema operacional para a sua última alteração. Na mesma frase, porém, ela esclarece que aquela data corresponde a um dia em que ela abriu o arquivo e pressionou “salvar” sem fazer nenhuma alteração, sem pensar, automaticamente. O contexto humano vaza para o jornalismo. Esse tipo de interação rápida entre fato e reação emocional continua por todo o livro, às vezes chegando a extremos. Como quando ela fala da mãe que não queria deixar o homem que iria informá-la da morte de seu filho entrar na sua casa, como se isso fosse impedir o evento (um bombardeio) de ocorrer. Através de uma notícia de fato jornalística, Didion fala de si mesma e declara que passara pelo mesmo.
Na verdade, ela não é fria, pois suas emoções podem ser lidas em cada linha do livro. Não existe uma narrativa deslocada para um ponto de vista externo, pois ela não consegue. Ela volta constantemente para dentro do instante que ela viveu, ininterruptmente, por toda a narrativa, e nisso ela, ao tentar analisar de alguma forma sua dor, a revive excruciantemente. O que vemos ali é esse caminho, sua via crucis. Na verdade, ela não é lúcida, apesar de pesquisar todo tipo de fonte autoritativa sobre perda e luto, incluindo (pasme) um manual de etiqueta para moças de cerca de um século atrás. Mas não existe uma análise que a faça compreender suas próprias reações, como o fato de relutar em dar as roupas do marido falecido, embora ela tenha lido exaustivas análises sobre isso. A conclusão a que o leitor é levado durante todo o texto é essa: nada prepara para a perda. É como um experimento do Quarto Chinês emocional, algo como qualia, podemos gritar e espernear, mas nunca conseguiremos fazer ninguém entender como é ser quem somos, nem para um clone. Didion não conseguiu entender, ela mesma, o que ocorria consigo, apenas vivenciar.
Não sendo um relatório frio e lúcido, o que é? Uma elaboração do luto, da dor, da perda, da jornada de anti-heroísmo que isso representa. A nossa sociedade ocidental, ou eu deveria falar a sociedade ocidental européia anglófona, tem uma enorme dificuldade em encarar esse fato da vida. Por isso a insistência em elogiar o texto de Didion por ser uma “rara” narrativa onde a “pieguice” dá lugar ao relato “cru”. Mas não é um relato cru, realmente. O que Didion faz, na verdade, é disfarçar o relato de luto com miríades de pequenos fatos jornalísticos que distraem e enganam o superego ocidental para que não perceba que está, afinal, deixando-se levar pelas suas emoções piegas. Ela passa suas mais de 220 páginas tentando, sem sucesso, envelopar as emoções irracionais em embalagens analíticas, inteligíveis e, efetivamente, acaba por escrever um livro inteiro apenas para falar, incessantemente, de todas as formas que sua cultura e conhecimento profundos permitem, a simples frase “meu marido morreu”. Fazer isso de forma mais direta e sem a habilidade quase agilulfiana de Didion seria impensável em seu recanto do mundo, a metrópole americana. Uma resenha em inglês declara: “An act of consummate literary bravery, a writer known for her clarity allowing us to watch her mind as it becomes clouded with grief.” O falante de inglês se vê cercado pela pieguice e precisa aceitá-la dentro de um Cavalo de Tróia literário (para usar uma imagem popular agora em tempos de evidência da Odisséia). Um ato de coragem literária: fazer as harpias chorar.
Como era a Joan Didion conhecida pela clareza como escritora? “Destemida, original e uma maravilhosa observadora”, segundo seu editor do New York Review of Books, Robert Silvers. Filha de cinco gerações californianas, leu e tentou imitar Hemingway na adolescência e informa Joseph Conrad como outra referência precoce. E precoce ela foi, decolando da graduação em Inglês na UCLA para uma rápida carreira na Vogue (após ganhar um concurso da revista). “Cética do convencional e brilhante para encontrar a pessoa ou situação que mostrasse o panorama mais amplo”, declarou ainda seu editor. Após escrever um romance e se tornar uma jornalista conhecida, casou com o amigo de vários anos John Dunne, adotou uma filha a quem chamou Quintana Roo (nome de um estado mexicano) e foram escrever roteiros para o cinema. Talvez os mais conhecidos até hoje sejam a versão de 1976 de A Star is Born (a versão de 2018, com Lady Gaga, recuperou o interesse na história no século XXI) e True Confessions de 1981. O obituário dela do NYT nos diz que os dois se tornaram o “casal glamouroso, com um pé em Hollywood e outro nos salões literários de Manhattan”. Sobre seu estilo sempre tendendo a encontrar e descrever cenários pré-catastróficos (tanto na ficção quanto fora dela), o crítico Adam Kirsch a descreveu como sempre “entrando em um tipo de autismo”. Didion declarou que tinha “um temperamento teatral”. Por último, em uma entrevista de 1977, Didion revela que uma escritora “deseja contar a alguém seu sonho” porém, frente ao desinteresse das pessoas, “uma escritora sempre tenta iludir o leitor a escutar seu sonho”.
O livro de Joan e John não é único, seguindo uma longa lista de obras que incluem Mourning Diary (Roland Barthes), A Grief Observed (C.S. Lewis), Une mort très douce (Simone de Beauvoir), Death Be Not Proud (John Gunther), Consolatio (Cicero). Pois é, até o velho e prolífico Cícero escreveu um exemplo (talvez o primeiro? Duvido.) desse que pode ser classificado como um subgênero da prosa sobre o luto, uma dissecação intelectual dos sentimentos variados e sem controle que se seguem à perda. Nunca li nenhuma destas obras, nem outras que certamente se encaixam na mesma estante. Todavia, em língua inglesa, não deve haver obra intelectual (ou emocional, ou qualquer uma) sobre o luto mais popular (meio esquecida por enquanto, e nunca muito conhecida no Brasil) do que o vasto poema In Memoriam A.H.H. de Alfred, Lord Tennyson. Esse estou lendo, já quase terminando. Tennyson é considerado o mais importante poeta romântico de seu país, e um dos maiores poetas britânicos de todos os tempos, na mesma classe do bardo (sob os olhos do qual repousa em Westminster). Para mim, isso ilustra uma certa nuance da cultura anglófona, e não acho coincidência que o Poeta Nacional da Inglaterra Vitoriana tenha se tornado renomado após escrever mais de 130 epitáfios para seu melhor amigo e amor platônico, morto em juventude.
Voltando ao cabeçalho, ou chamada noticiosa, da introdução do livro de Didion, ela explica que, em algum momento, pensando em lembrar daquilo que mais a impressionou (ela usa a expressão “what seemed most striking”), acrescentou a quarta linha como “Um instante normal” (“The ordinary instant”). Depois, pensou melhor e decidiu retirar a palavra “normal”, explicando que justamente o fato de todos e cada momento em torno do que ocorrera serem absolutamente normais tornava tudo tão inverossímil. E, no primeiro momento de análise, logo na primeira página do livro, ela discorre sobre como é comum que as pessoas falem sobre suas tragédias enumerando, em primeiro lugar, tudo que estava normal na ocasião. “Ele estava voltando para casa (…) feliz, (…) e então…” ela oferece um exemplo jornalístico. Porém, o que ela faz, na verdade, é justamente iniciar uma longa exposição do que foi comunicado na quarta linha de sua chamada introdutória, porém não mais de forma aberta ou clara. Afinal, ela não pode ser “piegas”, deve ter “coragem”, precisa evitar “a questão da autopiedade”. E ela o faz, narrando os fatos “sem pieguice” e com “frieza cirúrgica”, de forma lúcida e envolvente, transformando a experiência caótica das emoções do luto em um texto elegante, ou ao menos é o que parece, como muitos julgaram. “A forma como escrevo é o que sou, ou o que me tornei”, ela nos diz, e acrescenta: “neste caso, as palavras não me bastam para encontrar um significado, (…) preciso que o que penso e acredito seja penetrável, ao menos para mim mesma.” Joan Didion conseguiu finalmente comunicar o que precisava, falhando na tarefa auto-imposta de ser jornalisticamente cirúrgica e afastada, e alcançando sucesso sendo transparente não apenas para si mesma, mas para quem desejar escutá-la.
