A pequena sereia era um monstro mitológico
O que teriam a ver um com o outro um barão filho da nobreza alemã e francesa e um orfão de pai dinamarquês obrigado a trabalhar numa fábrica a partir dos nove anos de idade? E qual dos dois tornou-se um escritor imortal, famoso no mundo inteiro até hoje? E, por último, o que isso tem a ver com lendas brasileiras e um livro de uma escritora de Fortaleza?

A primeira imagem é de mais um livro que pesquei no archive.com, uma tradução para o inglês dos Contos de Fadas de Hans Christian Andersen, publicado em 1884 e que estou lendo. Um dos contos mais famosos é “A pequena sereia”, originalmente publicado em 1837. É, aquele mesmo da Disney. Andersen foi o garoto pobre de uma vila numa ilha da Dinamarca que perdeu o pai sapateiro aos 9 anos, teve que abandonar a escola e trabalhar numa fábrica para ajudar a mãe. Aos 14 anos, sua mãe lhe dá suas economias e ele viaja a Copenhagen e, depois, para a Alemanha. Encontra muitos críticos mordazes de seus primeiros textos e alguns protetores ricos que reconheceram seu talento, como o Conde Conrad de Bretenburgo, no castelo de quem morou vários anos. Quando voltou a sua pequena vila natal, já era famoso em toda a Europa. Pois é, a vida de Andersen, descrito como um poeta gentil, delicado e algo melancólico, foi sim um conto de fadas.

A Pequena Sereia (esse foi o título original que Andersen deu à história) era uma história para jovens, muito embora a pequena sereia (chamada assim em todo o texto, nada de Ariel no original) tenha morrido no final e o conto aborde temas mais adultos do que estamos acostumados a ver em filmes da Disney. Andersen faz a pequena sereia se transformar em ninfa do ar após a morte, pois desejava dar um final diferente da história que o inspirou, o conto Ondina, do Barão Friedrich de la Motte-Fouqué.

Essa imagem mostra uma tradução para o inglês do livro do barão, publicado em 1869 (também no archive.com). Inspirado em obras do início da renascença e medievais, o barão escreveu a história de uma ondina, uma ninfa das águas, que se apaixona por um nobre alemão. Ondinas não são realmente sereias, não tem cauda de peixe, e essa é apenas uma de várias diferenças entre as duas histórias. O conto do barão não é uma história infantil. Escritor da época do romantismo alemão de Weimar, admirava Schiller e Goethe, e provavelmente teve contato com Herder, filósofo e escritor alemão que defendia que o romantismo devia resgatar as lendas populares como escrita nacionalista. Na época em que o barão publicou Ondina, ele era razoavelmente famoso. Algumas décadas depois, porém, já tinha sido esquecido até mesmo na Alemanha. No conto da Ondina, o amor da ninfa a trai com uma humana, algo proibido pela magia do reino de onde a fada tinha vindo. Mesmo contra a vontade, o Ondina se vê obrigada a matar seu amado, afogando-o nas próprias lágrimas. Definitivamente, não é uma história para crianças. A estátua de mármore feita pelo escultor americano do século XIX Chauncey Bradley Ives flagra a ondina quando ela surge coberta com um véu para matar seu amado.

E foi aqui onde Andersen resolveu mudar tudo e dar outro formato e final para a história. Bem, a pequena sereia ainda fica sem o príncipe, que se casa com outra no final, e morre, mas aí se torna imortal, etc.
Um parágrafo para acertar detalhes: as palavras lenda e mitologia podem ser usadas confortavelmente quando falamos de narrativas fantásticas da tradição ocidental. Mesmo que tenham sido um dia figuras deificadas, os povos que os adoraram, em sua maioria, não existem mais, e sua memória foi quase totalmente esquecida. Já quando falamos de narrativas de povos originários do Brasil, devemos nos perguntar sempre como essas pessoas enxergam as próprias crenças. Dessa forma, a não ser que seja explicitamente classificado assim, as denominações européias ocidentais são inadequadas.
Aqui no Brasil, algumas narrativas lembram as lendas de mulheres mágicas das águas com corpo de peixe. A mais conhecida é a da Iara. Supostamente oriunda de povos originários, na verdade ela não aparece na literatura do Brasil Colonial e só fica popular no século XIX, mesma época em que Gonçalves Dias publica seu poema “A Mãe D’Água”. Dias foi fortemente influenciado por quem? Sim, pelos alemães românticos, como Schiller e Herder.

A Iara, ou Uiara, porém, não foi criada por Gonçalves Dias. Assim como Herder ou Grimm, Dias usou histórias da oralidade do povo brasileiro na sua época para compor seu poema. Essas histórias, todavia, possivelmente não existiam antes do europeu chegar aqui. Então, a Iara parece ser uma fusão das lendas européias e, talvez, o Ipupiara, esse sim um relato da época colonial atribuído a uma deidade ameríndia descrita pelos europeus como um monstro que está mais para “peixosomem” e matava e comia pedaços de suas vítimas. Tem uma figura de um Ipupiara aí em baixo, tirada de um livro dos anos 1500. Notem que o europeu sempre queria se caracterizar como dominador até mesmo de criaturas mágicas.

Paulo A. F. da Rosa Júnior, escritor e professor gaúcho, publicou recentemente em sua tese de doutorado que os mitos de mulheres-monstro vem sendo ressignificados ao longo do tempo, desde as sirenas de Homero (que eram parte pássaro, não peixes), passando pelas sereias medievais (que adquiriram meio corpo de peixe), fundindo-se com lendas germânicas e sendo exportadas para o Novo Mundo, até as obras mais recentes, como esse pequeno conto da escritora cearense Gabriele Diniz, “As Águas do Rio”, que usa de forma original os conceitos da Iara (nesta obra com elementos do Ipupiara) e do Boto (que também é uma história de provável inspiração colonialista que absorveu elementos locais). Segundo Paulo da Rosa Jr., a obra da literatura que transformou as sereias definitivamente em ícones mundiais conhecidas em todo o mundo foi… sim, A Pequena Sereia.

Após fechar a circularidade, um último detalhe adicional: em 1962, John Severinghaus e Robert Mitchell descreveram alguns casos de uma condição médica rara que foi denominada de “Maldição da Ondina” por “investigadores com inclinação clássica” no dizer de Severinghaus. Também chamada de “hipoventilação alveolar primária crônica”, indica pacientes que perderam o controle autonômico da respiração de alguma forma. Tais pacientes precisam estar conscientes para respirar. Entre as mais variadas versões do conto de La Motte-Fouqué, uma adaptação teatral de 1939 do francês Jean Giraudoux apresenta o príncipe falando que “tudo que meu corpo deveria fazer sozinho precisa do meu comando… Um momento de inatenção e acabo esquecendo de ouvir, respirar…”. Nessa peça, o príncipe “morre porque respirar lhe entediava”. Não há certeza de que esta obra sugeriu o epônimo da síndrome, pois Severinghaus nunca entra em mais detalhes.
Severinghaus, ele mesmo, foi meio que um personagem lendário. Morreu aos 99 anos em 2021, após uma longa carreira que começou como físico, tendo trabalhado com radares na segunda guerra. Depois do conflito, aos 32 anos, entra na escola médica. É considerado um dos grandes pais da anestesiologia moderna e foi o inventor do gasômetro. Mitchell, seu aluno e amigo por longo tempo, descobriu os receptores de CO2 no tronco cerebral que permitem o controle da respiração. Particularmente, não sei se foi a peça de Giraudoux que inspirou Severinghaus, pois o francês é acusado de antissemitismo e colaboração com a ocupação nazista da França. Não combina com um ex-combatente dos aliados.
Publicado no Substack de Baldolino Calvino.
