falando as mesmas coisas com mais clareza (ou não)
na primeira parte dessa digressão, usei propositadamente frases longas, complexas, convolutas e com afirmações algo obscuras, ou que pelo menos poderiam ser interpretadas de várias forma possíveis. além disso, usei um estilo que lembra s aramago, sem maiúsculas e com pontuação estranha. hoje, mantendo o estilo de escrita saramaguiano, vou voltar aos comentários que fiz, usando talvez outros pontos de vista, porém com linguagem mais clara e direta. apenas para exemplificar, a oração mais longa do texto anterior (se não contarmos um ponto de interrogação dentro de um parêntese) tem 94 palavras, 15 verbos (orações), ocupando 7 linhas. não sei como alguém conseguiu acompanhar, mas sei que não foi fácil! fato paralelo: dei o link da postagem para a gemini, pedi para apontar a frase mais longa e contar as palavras (estava com preguiça!) e ela errou.
por que fiz isso? a história já clássica da declaração1 do Searle nos 50 anos da sua carreira em Berkeley e em entrevistas foi a inspiração. o filósofo americano citou2 as máximas de Grice, que na verdade são obviedades, conforme a teoria da relevância. aliás, muito mais interessantes são as características das implicaturas de Grice, mas Searle não achou que viessem ao caso (eu discordo!). resumindo, Searle alegou que tanto Foucault quanto Bourdieu falaram que obscureciam seus textos de propósito, embora suas preleções fossem tão claras quanto aquelas do filósofo de Berkeley. este ainda acrescentou que isso ocorria para se adequar à prática parisiense, muito por influência dos alemães. culpa do Kant, sempre digo! em seu livro de 2006, Breaking the Spell, Daniel Dennett explicitamente cita essa anedota do Searle e cunha o termo linguisticamente híbrido “eumerdification” como sinônimo dessa prática. acho que dá para desculpar o velho por essa brincadeira de gosto duvidoso, quem nunca?
uma das preocupações que tenho é a do uso eumerdificado da eumerdificação, criando uma interessante autorreferência que beira o paradoxo russelliano. afinal, se eu eumerdificar a eumerdificação, ela se torna perfeitamente clara e respeitável? mas, nesse caso o texto não será mais eumerdificado, e aí… vocês entendem. um exemplo prático e uma generalização: o escritor e blogueiro Derek Miller, já falecido, postou um pequeno texto em seu blogue em 2011, menos de 2 meses antes de encontrar seu limite. nele, ele cita Dennett e acrescenta um link para um texto que ele havia reformatado em 2004 (escrito originalmente em 2003), sugerindo que talvez houvesse ali alguma eumerdificação. eu li o texto, escrito por uma professora americana de estudos feministas, um dos temas caros aos pós-estruturalistas europeus (“continentais”). a minha impressão é que Miller possivelmente confundiu um texto com jargão técnico próprio de sua área (o qual ele não poderia entender por completo) com um propósito de obscurecimento. e é isso que eu chamaria de eumerdificar a eumerdificação, pessoas começarem a chamar qualquer texto que lhes pareça incompreensível com essa denominação. afinal, usando esse mesmo critério, o que teria dito Miller sobre a teoria da informação integrada de Tononi?
voltando ao meu texto anterior, comecei lembrando o experimento mental popularmente atribuído a Berkeley (o bispo inglês, dessa vez, não o local de trabalho do Searle). “se uma árvore cai em uma floresta e não há ninguém por perto para escutar, ela faz ruído?” o empirista inglês não se perguntou isto, mas questionou-se sobre a existência de objetos face à observação, e chegou a usar como exemplo hipotético árvores em um parque.
“But, say you, surely there is nothing easier than for me to imagine trees, for instance, in a park, or books existing in a closet, and nobody by to perceive them.” (A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge, 1734, section 23)
“The objects of sense exist only when they are perceived; the trees therefore are in the garden… no longer than while there is somebody by to perceive them.” (A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge, 1734, section 45)

empirismo é uma teoria do conhecimento, ou epistemologia num sentido mais objetivo e conciso, ou ainda, numa acepção restritiva, uma filosofia da ciência. porém, na época de Locke, apontado pelo cânone filosófico ocidental como originador do empirismo britânico (para distingui-lo dos empirismos contemporâneos), ninguém, nem ele mesmo, usava esses termos, todos bem posteriores (2 ou 3 séculos). ele e seus pares se denominavam filósofos naturais. na essência, empirismo é a teoria de que a única fonte do conhecimento é a experiência (empeiría, /έμπειρία/ em grego), o Axioma Peripatético ou Lockeano. para Berkeley, um empirista radical, nada existia que não fosse aquilo experimentado (Esse est percipi, “ser é ser percebido”, era o lema dele). aqui precisamos fazer um recorte conceitual. ele (Berkeley) também é considerado um filósofo idealista (na verdade, muitos o denominam apenas disso e guardam o adjetivo empirista para filósofos modernos), e o que é o idealismo? não tem necessariamente a ver com empirismo, não se trata (apenas) de uma teoria sobre o conhecimento, e sim sobre a realidade, ou seja, uma metafísica (para ser exato, este é o idealismo ontológico, mas existe sua versão epistemológica). a primeira filosofia, como Aristóteles definia, a metafísica sofreu uma ressignificação radical a partir do final do século XIX, e provavelmente devemos falar de várias metafísicas hoje em dia, mas naquela época era um raciocínio de poltrona sobre a natureza da realidade. críticas à parte, os conceitos da metafísica ainda são usados rotineiramente por filósofos de todas as correntes e áreas. o idealismo de Berkeley é considerado radical, no sentido em que, partindo de seus argumentos empiristas, dando credencial de verdade apenas ao que podemos perceber, ele identificava isso com a realidade. ou seja, apenas existe o que podemos perceber, o lema dele. o idealismo mudou tanto quanto a metafísica ao longo dos séculos entre o velho bispo e nós, mas vamos ficar com ele. a epistemologia (empirismo) e a metafísica (idealismo) dele se conectam, mas vivem em domínios diferentes (alguns, como citei, denominam sua posição de idealismo, tanto epistemológico, quanto ontológico, mas dá no mesmo). sem dúvida, ele entenderia o experimento mental atribuído a ele, mas não foi seu autor nessa forma.
e o próprio idealismo não começou com os ingleses e seu bispo, mas remonta pelo menos a Platão, embora possa ser argumentado facilmente que o idealismo platonista era realista e não o era o dos empiristas britânicos. mas realismo não é o contrário de idealismo? não necessariamente. idealismo (ontológico) se refere à natureza daquilo ao qual subscrevemos existência, o mundo e os seres, nesse caso identificados com a percepção, a ideia. para Platão as ideias eram a “verdadeira realidade” e tinham uma existência independente da mente do observador. isso o distingue do idealismo de Berkeley, onde apenas se sabe sobre a existência de ideias na mente de quem percebe algo, mas sobre a existência desse algo nada é possível afirmar. para o empirismo britânico nada existe fora da realidade mental. essa posição pode ser denominada ceticismo, ou mesmo solipsismo (quando radical, assume que apenas a existência da mente é certa) ou, mais modernamente, antirrealismo. motivo suficiente para os realistas daquela época (sim, os havia e alguns eram escoceses, defendendo o senso comum contra o que chamavam de “loucura” dos ingleses) e os positivistas de 1-2 séculos depois surtarem. Hume, talvez o maior expoente do empirismo daquela época, era escocês como seu arquirrival Thomas Reid, realista do senso comum. um escocês que leu os estoicos até literalmente sua exaustão, Hume se dizia “americano nos meus princípios” e ficou famoso escrevendo uma “História da Inglaterra”. o idealismo iria ser profundamente modificado ainda, tornando-se alemão e, depois, fenomenologia, acabando por se transformar em uma explosão de “linhagens” (ou talvez clados) de pensamento que incluem não apenas a filosofia e não vem ao caso agora. durante o período do século XVIII em que esse pessoal viveu, chamado por alguns de iluminismo filosófico, surgiram e se desenvolveram as tendências que iriam dominar o pensamento científico e das humanidades, incluindo a economia (Adam Smith era íntimo de Hume), por séculos.
uma das escolas ou clados filosóficos mais antagônicos ao idealismo é o materialismo. enquanto existem realismos idealistas, não existe essa classe de materialismos, todos são mais ou menos empiristas, realistas e acreditam que o mundo e os seres são concretos, feitos da mesma e única matéria, como queria o filósofo maldito La Mettrie. assim como o idealismo, não existe apenas um materialismo, mas a variedade deles é ainda maior do que a dos idealismos. assim como o idealismo teve precursores de suas ideias na Grécia clássica, assim também o materialismo os teve, os atomistas como Demócrito e, talvez mais popular, Epicuro, o cara dos átomos, do vazio e da deriva (clinâmen), criador de um empirismo materialista robusto e sobre quem Marx elaborou seu doutorado. porém os seres humanos provavelmente se perguntam do que o mundo é feito e sobre a natureza de suas percepções desde muito antes. tanto o materialismo quanto o idealismo, o realismo e o empirismo tiveram formulações equivalentes em tradições mais antigas, como a hindu. Darshana (दर्शन, em sânscrito) é uma palavra que pode ser equivalente ao conceito ocidental de filosofia, dividida em dois grandes grupos de escolas, Astika (आस्तिक), que aceitam os Vedas (textos religiosos sagrados do hinduísmo) e podem ser encaradas como teístas, e Nastika (नास्तिक), as quais não aceitam os textos sagrados, como o atomismo Charvaka (चार्वाक), que pode ser classificada como empirista, ceticista e materialista usando categorias ocidentais. O budismo, ou Dharmavinaya, também é classificado como Nastika e poderia ser categorizado pelo olhar ocidental como materialista, porém suas várias correntes diferentes resistem por vezes a uma classificação. Adicionando mais nuance, Samkhya (सांख्य) é uma escola Astika não teísta dualista, dividindo o mundo entre matéria (Prakriti, प्रकृति, incluindo não exatamente o conceito de matéria ocidental, mas todo fenômeno perceptual, cognitivo e emocional) e espírito (Purusha, पुरुष). Poderia ser descrita em parte como empirista e realista. Outras tradições que incluem questionamentos sobre a realidade e a percepção são o Taoísmo (o qual também resiste uma categorização ocidental, mas alguns denominam de idealismo objetivo; ou também materialismo dialético! e ali atrás eu falei que não existem exemplos de materialismo idealista) e o dualismo do Gênesis (talvez o texto mais antigo da Bíblia e que inclui material da Mesopotâmia acádia do século XVIII AEC). existem sugestões de que ocorreu uma emergência de ideias filosóficas em vários povos da Eurásia e Levante na mesma época, em torno do fim do que se convenciona chamar de Idade do Bronze. isto provavelmente é um factoide que oculta o fato de que estas ideias talvez se desenvolvam por milhares de anos antes dos primeiros registros escritos atestados, que surgiram no final do neolítico.
na primeira parte, mostro a imagem do Tablete de Dispilio, um fragmento de cedro entalhado com símbolos, considerado a mais antiga evidência de um possível registro escrito. as únicas imagens deste artefato estão no artigo de Yorgos Facorellis, Marina Sofronidou e Giorgos Hourmouziadis, publicado em 2014 e gentilmente depositado no ResearchGate, onde pode ser acessado de forma livre. a imagem abaixo vem do mesmo artigo e mostra parte do inventário de símbolos recuperados deste e outros artefatos do mesmo sítio arqueológico (A), comparados com amostras de linear A e artefatos paleoeuropeus (B e C). a datação com C14 o situa a cerca de 7 milênios atrás, no neolítico precoce. o sítio fica na região da Kastoria, norte da Grécia, na margem sul do lago Orestias, num local chamado Nissi (ilha). em 1932, o professor Keramopoulos, da Universidade Aristóteles da Tessalônica encontrou os primeiros traços de um assentamento que, descobriu-se, foi continuamente habitado por quase 5 milênios. esse tipo de ocupação contínua deveria nos causar vertigens, seres que somos filhos de uma civilização que mal tem registro de 2-3 milênios de existência. fortuitamente, a construção de uma estrada entre Dispilio e Orestias levou a obras de drenagem que expuseram o sítio. desde os anos 90, o professor Hourmouziadis dirige as escavações. em julho de 1993, ao drenar uma trincheira escavada abaixo da linha da água na beira do lago, após a lama ser removida, o tablete de madeira surgiu flutuando na água. deve ter sido uma visão e tanto! os símbolos nestes artefatos de Dispilio se assemelham, segundo o artigo, com outros encontrados em objetos relacionados à cultura Vinca.

não, não vamos conseguir ler isso agora e, se um dia pudermos, provavelmente representam alguma dedicatória a ancestrais ou deuses, ou talvez uma lista de compras. muitos artefatos antigos têm basicamente listas de produtos e eram usados por comerciantes. o mais importante é que estes símbolos indicam a possibilidade da existência de uma cultura material com registros de algum tipo de ideia. logicamente, não se espera encontrar textos sobre filosofia, porém a evidência de algum tipo de escrita no início do neolítico joga a possível origem de questionamentos abstratos entre esse ponto e os textos mais antigos que temos. talvez até muito antes disso, se levarmos em conta, por exemplo, cosmogonias tradicionais de povos com longas tradições orais. no Brasil, a presença de ocupação humana tem sido reestimada e pode ter ocorrido bem antes da tradicional hipótese Clóvis primeiro, situada em torno de 12 milênios atrás. os Umukomasã ou Wĩrã (Desana) são um povo da região da bacia do Rio Negro, fronteira Brasil-Colômbia. sua história do mundo, equivalente a cosmogonia ou cosmologia, foi escrita em português por Umusi Pãrõkumu e Tõrãmũ Kẽhíri, habitantes das margens do rio Tiquié (alto Rio Negro), através do apoio da antropóloga Berta Gleizer Ribeiro, que aparece nessa foto abaixo com ar de deusa (a própria Yebá Buró?) ante integrantes do povo Kadiwéu, em 1948, ano em que casou com Darcy Ribeiro. os detalhes da cosmologia Wĩrã impressionam pelos conceitos que demonstram.
imagino a imagem invertida, com uma jovem intelectual Umukomasã no primeiro plano e, no segundo, homens brancos vestidos com suas roupas usuais, paletós, camisas brancas, pastas executivas, expressões modernas
No princípio o mundo não existia. as trevas cobriam tudo.
Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por si mesma.
Isso aconteceu no meio das trevas.
Ela apareceu sustentando-se sobre o seu banco de quartzo branco.
Enquanto estava aparecendo, ela cobriu-se com seus enfeites e fez como um quarto.
Esse quarto chama-se Ʉhtãboho taribu, o “Quarto de Quartzo Branco”.
Ela se chamava Yebá Bʉró, a “Avó do Mundo” ou, também “Avó da Terra”.
nessa narrativa, vemos uma creatio ex nihilo, onde a divindade aparece sem causa aparente, “por si mesma”. uma cosmogonia sem causa primeira. a divindade aparece associada a materialidade, ao “banco” e “quarto de quartzo branco”, e a narrativa sugere que ela cria essa primeira manifestação da matéria, aparentemente depois que “cobriu-se com seus enfeites”. resumindo, temos uma criação da matéria a partir do nada, através de objetos imbuídos da vontade da divindade, essa ação voluntária e espontânea cria a realidade.
Haviam coisas misteriosas para ela criar-se por si mesma.
Haviam seis coisas misteriosas: um banco de quartzo branco,
uma forquilha para segurar o cigarro,
uma cuia de ipadu, o suporte desta cuia de ipadu,
uma cuia de farinha de tapioca e o suporte desta cuia.
Sobre estas coisas misteriosas é que ela se transformou por si mesma.
Por isso, ela se chama a “Não Criada”.
a divindade não apenas cria espontaneamente, a partir do nada, por sua vontade, a matéria, porém essa realidade material, um conjunto de objetos denominados “misteriosos” (sem explicação, sem causa) que incluem um objeto ritualístico (cuia de ipadu - a folha da coca), um objeto de provimento (cuia de farinha de tapioca), seus suportes, e o banco de quartzo e uma forquilha para cigarro, ajuda a divindade a criar a si mesma. a cosmogonia, assim, é circular, do nada surge a divindade por sua própria ação e vontade, criando a matéria e usando esta para criar a si mesma. parece um sistema bastante complexo de crenças equivalentes aquilo que chamamos metafísica e com pistas para uma epistemologia (a matéria é criada pela vontade da divindade, logo, esta última, a sua consciência, ou ação voluntária, é a fonte do mundo e dos seres). porém, diferente de uma metafísica dualista ou uma epistemologia empirista ocidentais, este sistema integra desde o início uma recursividade entre o ser e o mundo. trata-se de um sistema equivalente aquilo que chamamos filosofia, porém original. talvez nunca tenhamos certeza, mas estas tradições orais podem ter se perpetuado por dezenas de milênios. não vou me prolongar, esse assunto mereceria não apenas um, mas toda uma série de textos.
a mensagem principal é que o ser humano se interroga questões que poderíamos classificar como equivalentes à filosofia ocidental há muito mais tempo do que podemos depreender pela mera avaliação de textos escritos (esses mesmos bem escassos na antiguidade arcaica). entre o dualismo interacionista (postula uma influência entre matéria e mente/espírito) recursivo Wĩrã e a protofilosofia pré-socrática, qual poderíamos classificar como mais elaborada ou sofisticada? então, esse é um problema antigo (o da percepção e da realidade), ao qual nossa civilização deu pouco mais de 2 milênios de intensa investigação intelectual e, provavelmente, culturas ancestrais ponderaram por um tempo muito maior.
podemos chamar isso de questão da objetividade e, nesse caso, temos a solução? os racionalistas europeus (“continentais”) foram opositores dos empiristas, teorizando que o conhecimento advém da razão, a tese do “conhecimento inato” que, cá para nós, não é exatamente fácil de ser sustentada. os empiristas britânicos, no entanto, como vimos, nem mesmo defendem homogeneamente que a percepção causa o conhecimento, ou seja a tese de que o conhecimento é adquirido, pois, em princípio, não conseguem concluir que exista algo percebido, apenas que existe a manifestação mental de uma percepção. porém, os “inimigos naturais” dos empiristas do século XIX não eram realmente os racionalistas, mas sim os realistas do senso comum, cuja posição ajudou a influenciar a atitude dominante atualmente na ciência e filosofia, através de sua influência pervasiva na Europa e América do Norte. influência que infiltrou-se até na arte (o expressionismo é filho dos realistas escoceses), na política e na religião. é nesse ponto, na verdade, que faço minha crítica: mesmo que a contraposição ao Axioma Lockeano abra novamente a caixa de pandora do inatismo ou nativismo (piorando nas versões “científicas”), e que os escoceses tivessem problemas com a causalidade (bem, Hume tinha até mais), suspeito que a adoção imediata deste realismo se deve mais à sua defesa irrestrita do livre arbítrio, em contraste com o presbiterianismo (o qual defendia um fatalismo tal o maktub árabe). ou seja, a intelectualidade americana e francesa do século XIX e XX abraçou uma crença que convinha a seus ideiais de liberdade, sem abrir mão de um convencionalismo que os unia também aos empiristas (ou positivistas) lógicos do Círculo de Viena. essa posição, comento depois, em nada resolve essa questão, principalmente porque esse não é seu objetivo.
nos anos 30, surgiu o fisicalismo de Neurath e Carnap e do pessoal do Círculo de Viena. sem sombra de dúvida, a posição mais canônica na filosofia e física da América do Norte, mas nem tanto na Europa e América do Sul. para não prolongar mais ainda o texto, que é uma digressão não exaustiva e com ambição de ser básica, vamos aos argumentos objetivos. o argumento do fechamento causal sempre me deu uma impressão de tautologia, embora provar isso requeresse um milagre, aparentemente. mesmo assim, este argumento está longe de ser uma unanimidade, mesmo entre os fisicalistas. já o argumento do naturalismo metodológico foi dinamitado de vez pela própria ciência empírica na qual se ampara. basta ver a opinião de Max Planck:
Science cannot solve the ultimate mystery of nature. And that is because, in the last analysis, we ourselves are part of nature and therefore part of the mystery that we are trying to solve. (Where is Science Going, 1932, Epilogue, p. 217)
poderíamos resumir toda a posição cientificista no meme de Feynman sobre o problema da medição: shut up and calculate! ou seja, não interessa esse papo sobre realidade, chega de bobagem e volte ao trabalho sério! ou ainda na posição de Hawking: philosophy is dead. sem necessidade de explicação. mas o cientificismo é uma ideologia, malgrado a rejeição desse fato pelos seus defensores delirantes. aqui não trataremos disso, deixando para outro texto. é aqui que retornamos ao convencionalismo cuja defesa parece ter sido a verdadeira razão para a cristalização do realismo do senso comum e do fisicalismo como doutrinas (mais do que posições filosóficas) como dominantes na filosofia e ciência da América do Norte. mas essa posição basicamente visa manter um status quo de ideias e, principalmente, práticas, sem crítica ou questionamento. assim, paradoxalmente, essa visão padrão da filosofia da ciência moderna norte-americana mais impede a discussão sobre o problema da objetividade do que o soluciona.
podemos oferecer alguma alternativa? na verdade, talvez sim. Farias Brito nasceu em São Benedito, Ceará, em 1862 e tornou-se o primeiro filósofo espinosista do Brasil (pelo menos de acordo com Marilena Chauí). um pensador que, segundo ela, produziu “surpreendente obra (…) hoje praticamente esquecida”. entre leitores que o consideram “confuso”, “insignificante” (nesse caso, em comparação direta com Espinosa, isso torna-se elogio) ou “ultrapassado” (especificamente, o julgamento de católicos tradicionalistas e de fascistas brasileiros que julgam seus escritos mais tardios como precursores de suas ideias), ele pode ser lido como um pensador original. ele constrói uma metafísica naturalista (ou naturalismo ontológico), na qual não existe espaço para o sobrenatural. constantemente afirmando compromisso com o monismo (atribuição da propriedade de unicidade), sua cosmovisão poderia ser melhor enquadrada, usando um jargão mais moderno, como um monismo de prioridade, mantendo um determinado tipo de dualismo de propriedades (ou fenômenos, objetivos e subjetivos) e, ainda, um pluralismo existencial (especialmente em sua fase tardia). Brito desejava se contrapor tanto aos idealistas britânicos e alemães (culpa de quem?) quanto aos materialistas positivistas, e recorreu ao monismo de Espinosa para isso. o conceito de espírito de Brito desenvolve essa raiz espinosista e a expande. o mais central para essa discussão atual é que Brito atribuiu realidade à observação.
interessantemente, Brito estudou Espinosa a partir de seus leitores idealistas e ecléticos do século XIX, com influência espiritualista e neo-kantiana (não falei?). apesar disso, ele criticou e rejeitou o idealismo tanto quanto o materialismo positivista que estava popular no Brasil naquela época. a concepção britiana confere credencial à ideia de que existe uma realidade objetiva diferente da percepção subjetiva e estes dois tipos de fenômeno são como “duas faces” da mesma e única realidade natural, a qual não é ingenuamente identificada com uma substância explícita, mas resiste a essa especificação. o que o afasta do idealismo, portanto, é a admissão de uma realidade objetiva, o que o afasta do materialismo é a atribuição de prioridade a uma entidade básica, a própria realidade, em seus diferentes fenômenos objetivo e subjetivo e seus diferentes modos correspondentes à miríades de entidades derivadas que existem transitoriamente. nesse sentido, é possível entender o pensamento britiano evoluindo através de sua obra, desde o monismo espinosista inicial até uma ideia que inclui o pluralismo do mundo sensível.
de toda forma, existe em seu projeto uma tensão entre um conceito de espírito indissociável da natureza, porém irredutível à ciência empírica. Brito claramente não aceita uma solução “mágica”, sobrenatural. ele concebe o espírito como manifestação intrínseca da natureza, da realidade, mesmo que não redutível ao estudo de seus componentes materiais. em parte, este sentido pode ser encarado como análogo ao conceito mais moderno de emergência, porém com uma diferença fundamental. na física (e na filosofia da ciência) atual, emergência, fraca ou forte, não muda ou confere substância nova ou especial à natureza, à realidade. Para o fisicalista, por exemplo, as propriedades emergentes da matéria, como a temperatura, não mudam a constituição desta, e nem acrescentam alguma outra substância, material ou não, a ela. emergência é um conceito real, porém imaterial, no sentido em que não corresponde a um ente físico em si, mas a uma interrelação ou arranjo específico de componentes materiais. o espírito britiano, ao contrário, ao mesmo tempo não é imaterial e não tem realidade independente da matéria, como um oposto das características emergentes. poder-se-ia chamá-lo de “o imanente”, para contrastar com “o emergente”. como expus, esta exposição, já mais longa do que planejei, não se propõe a exaurir nenhum tópico aqui citado. já basta introduzir minha opinião de que o pensamento britiano resolve a questão da objetividade de uma forma original, baseada (mas indo além) no espinosismo, e tentando diferenciar-se tanto do idealismo, quanto do materialismo. ele consegue realmente isso? essa resposta vai precisar de uma análise crítica mais acadêmica da questão, que deixarei para a terceira parte desta exposição, a qual será propriamente um artigo acadêmico, a ser publicado (veremos) num periódico especializado.
usei como base para o estudo breve que fiz de Brito a obra do mesmo, o artigo de Marilena Chauí e a excelente tese de doutorado de Júlio Filizola Neto. agradeço a meu orientador Antônio Conselheiro, do Instituto para Estudos Avançados de Hy-Brasil, Universidade de Tir na nÓg.
Texto publicado no Substack de Baldolino Calvino.
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Vide 1:37:45 ↩︎
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Um vídeo popularizado por um canal “intelectual” de extrema direita (isso não é contraditório?!) retirou um trecho desta aula de Searle em Berkeley, disponível no YouTube (40:27). ↩︎
