um ano em que Baldolino Calvino fez muito pouco
Quando foi mesmo que criei este perfil aqui no SSt? Nem lembro, mas há um ano atrás pensei seriamente em postar de vez em quando, ou de quando em vez, e ler algumas coisas por aqui, depois que descobri algumas pessoas postando em português brasileiro. É, acho que dá para falar assim, pois a língua do Brasil já está assumindo ares de um quase dialeto, e chega a influenciar o português falado nos outros países lusófonos, até mesmo Portugal, mas esse não é o assunto aqui hoje.
Coisas aconteceram, como costumam, e aqui estou, pouco mais de um ano após, digitando estas linhas que, possivelmente, ninguém verá. Mas será mesmo? Se ninguém ler o texto, ele existe, assim como a proverbial árvore no meio da floresta e seu som para Berkeley (que nunca considerou essa questão nos Tratados sobre os princípios do conhecimento humano, ela é na verdade anônima até certo ponto)? Apesar dos idealistas britânicos serem erroneamente considerados pioneiros nesse campo de discussão, pessoas pensam sobre a realidade do mundo há muitas eras, e provavelmente muito antes que existissem textos escritos de alguma forma (e isso é bem antigo).
Quem souber que imagem é essa na figura imediatamente abaixo, saberá que não deveria estar aqui, porém está. Então, ela existe agora, depois que você a viu, ou existia antes disso? E quando eu escrevi esse texto, ela passou a existir e ficou existindo até você encontrá-la, ou deixou de existir enquanto ninguém a mirava? E quem a produziu, há mais de 10 anos atrás? Esse fragmento de cedro (pronto, agora você sabe que isso foi uma árvore que caiu, o som dela existiu mesmo, somente agora, quando eu escrevi essa postagem, quando a foto foi batida, há mais de 7 mil anos atrás quando a árvore foi derrubada e o fragmento entalhado? Tantas questões…) permaneceu existindo entre o momento da foto e minha leitura do artigo (e sabemos agora que a imagem foi publicada, e o texto citado academicamente 19 vezes, são tantas as existências independentes desse objeto, ou somente existe uma vez, ou nunca existiu de fato)?
esta imagem não deveria estar aqui, mas está,e agora?
Não estou a fim de facilitar, não é? Desculpem-me os gregos que se deram ao esforço enorme de encontrar essa inscrição e publicá-la, por não declarar aqui os seus nomes (prometo que o farei em outra ocasião). Voltando, responda-me se puder: esse meu texto existe de fato? Como meu próprio experimento mental confuso aí em cima mostra, o empirismo e o racionalismo não oferecem soluções não contraditórias, e tampouco a versão fisicalista do empirismo que nunca se decide sobre a natureza do conhecimento e da mente (especialmente depois de Max Planck, que declarou uma opinião sobre essa questão: ele disse que ninguém sabia o suficiente para concluir nada!).
Existe alguma escapatória possível para o dilema? Ou deixarei você lendo este texto sem nem saber se ele existe mesmo (e o que é mesmo existir)? Bem, podemos pedir socorro a Farias Brito, um filósofo brasileiro (um dos poucos daqui realmente original) da virada do século 19 para o 20, nascido em São Benedito, na região serrana do Ceará (sim, lá tem serras, várias, e nessa localidade plantam-se flores como em Holambra, creia). Ele construiu um sistema de pensamento com alguma base em Espinosa com relações críticas ao empirismo transcendental de Kant (algo que gosto de falar é que sempre, tudo é culpa do Kant!), porém sem algumas de suas limitações.
Marilena Chaui, em 2018, disse: “Espinosa teria permanecido inteiramente desconhecido no Brasil não fosse a surpreendente obra de Farias Brito, (…) hoje praticamente esquecida.” Brito apontou para um empirismo transcendental baseado no que chama de espírito, ou seja, acreditou numa base sólida e confiável para o conhecimento, rejeitando a relatividade presente em Kant. Sem entrar na natureza do espírito britiano, ele oferece uma saída para o problema, concordemos ou não: sim, independente de qualquer outro fundamento, a priori o texto que você lê existe. Acredite se quiser. Você pode até discordar, mas aceitemos a coragem do pensamento de Brito ao enunciar isso.
Texto publicado no Substack de Baldolino Calvino.
P.S. (15/07/26): caso alguém se pergunte porque essa imagem da Tábua ou Tablete de Dispilio aí no artigo não se parece com aquela que talvez já tenha visto, isso acontece por que a tal Tábua que você conhece é falsa! Tem um video do canal The Prehistory Guys onde eles contam essa história. A imagem mostrada aqui vem do artigo original sobre os achados no sítio arqueológico de Dispilio. Coloquei uma hiperligação para ele no segundo artigo desta série.
