Há 12 dias fiz duas postagens, uma inaugurando meus rascunhos aleatórios não revisados e outra com conteúdo que eu tinha escrito há algum tempo e nunca postado em nenhum lugar. Não tenho quase nenhum seguidor e acho que nem visualizações, mas, sério, não comecei esse blog para isso. É mais para minha própria saúde mental. Sendo assim, vou jogar ao léu mais umas palavras sem destino.
Nestes dias, o que aconteceu de notável pelo mundinho? Eleições, claro. As eleições brasileiras já tinham se encerrado em outubro, mas como não comentei nada sobre elas, vamos também disso. Bem, como todos sabem, elegemos prefeitos (nesses a maioria lembra em quem votou) e vereadores (talvez a maioria já nem saiba em quem votou, ou pior, nem votou). Como é sabido e escorrido, da mesma forma, os dois partidos que são pintados pela mídia oficial e social como “extremos”, o PT e o PL, não tiveram bom desempenho. A maioria dos cargos eletivos ficou com os outros partidos, coletivamente jogados no saco chamado de “centro”. Mas será que temos realmente uma esquerda, uma direita, um centro e extremos na política brasileira?
Esse tipo de classificação é uma analogia com escalas que têm origem na estatística, na velha distribuição “normal” ou gaussiana. O comportamento de um valor observado, vamos falar o número de folhas que caem numa calçada, vai variar constantemente (por isso chamamos de “variável”), mas a maioria dos valores vai ficar próxima da média (que por isso se chama média). Isso não é coincidência, a média é calculada exatamente para refletir o comportamento da maioria dos valores observados. Além disso, ocorre uma variação “para longe da média”, pois os valores têm uma distribuição que difere da média ao longo de uma escala. Então, o fenômeno que matemáticos verificaram há muito tempo e pode ser encarado como fundamental, é que quanto mais longe da média, menos comum é a observação de valores. Dá para calcular de quanto é esse afastamento a partir da média, e falamos, por exemplo, em desvio padrão da média. Voltando ao exemplo, na maioria dos dias, vão cair na calçada um número de folhas próximo da média, e vai ser mais raro observar “extremos”: caírem poucas ou nenhuma folha, ou cair um número muito maior do que a média. Na prática, é raro observar eventos que estejam a dois ou mais desvios padrão da média.
Na analogia política, o centro “é a média”, esquerda e direita representam o mais próximo do centro e mais comum, “dois desvios padrão”, e os extremos representam as caudas da distribuição. A analogia pode continuar se considerarmos que aquilo que está no centro (que não é fixo, assim como a média trata-se de uma aferição das ideias mais frequentes) vai ser necessariamente mais popular e os extremos serão, assim, defendidos por minorias. Aí acaba a analogia, pois nos últimos anos o que presenciamos no Brasil e no mundo é uma polarização em que as pessoas ficam cada vez mais nos extremos do espectro político e menos no centro onde existiria consenso. Ou será isso mesmo? Será, então, que nessa eleição a polarização diminuiu um pouco e o centro voltou a ser dominante?
Vamos partir de premissas básicas para pensar sobre isso. Antes da polarização, havia uma clara definição de centro, direita e esquerda. Haviam personagens e instituições, partidos, governos, que representavam esses elementos do espectro. O que aconteceu de novo nesses últimos anos? Surgiu uma nova esquerda, mais radical? Sinto muito, mas essa narrativa não tem sustentação, embora seja comum. A simples comparação das pautas da esquerda brasileira ao longo do tempo mostra que sua principal característica foi, na verdade, não ter se modificado. Quando muito, pode-se apontar que a esquerda brasileira não se modernizou e nem a seu discurso. Mas não surgiu nada de novo, muito menos de mais radical ou extremo. A não ser que se enfoque em pautas de minorias, direito reprodutivo e questões de gênero. Porém, veja que esses temas não são realmente novos, e ganharam uma ênfase maior recentemente não exatamente pelas mãos da esquerda.
Se a esquerda não parece ter se modificado nos últimos 20 anos, o centro mudou? O centro é naturalmente mutável, assim como uma média, ele reflete a composição da maioria da população. Ele mudou juntamente com a população, mas não creio que ninguém vá realmente afirmar que o centro ficou “radical”. O que ocorreu, devido à polarização, foi uma redução do centro como aglutinador da maioria. Ao invés do espectro político lembrar um dromedário, como no desenho do pequeno príncipe de Saint-Exupéry (era uma serpente com um elefante na barriga, na verdade, mas tinha uma corcova, é o que importa!), ficou parecendo um camelo com duas corcovas. Ou, continuando a analogia estatística, uma distribuição bimodal.

Ok, então a esquerda não mudou, o centro perdeu representatividade, mas não mudou mais do que a média da população. Então, o que mudou? A essa altura, meus caros adeptos da maiêutica, já deve estar todo mundo sabendo o fato: foi o surgimento de uma nova direita, denominada extrema-direita por defender ideias mais radicais e fora do “centro” do que a direita tradicional. Enquanto a direita tradicional levanta pautas econômicas, de mercado, alinhadas com uma determinada elite que detém o controle da maioria dos recursos da sociedade (coletivamente chamadas de forma vaga de “empresas”, “banqueiros”, “investidores”, ou apenas “mercado”), a extrema-direita alia as mesmas pautas econômicas (com muito menos erudição) com um discurso baseado no tripé costumes, religião (apenas cristã) e moral conservadora. Dessa forma, nem foi a esquerda que realmente (há algumas exceções) passou a bater forte em pautas de costumes, e sim a novata extrema-direita.
Por que surgiu a extrema-direita? Alguém vai precisar de muitas teses de doutorado para responder isso. Porém, quero ensaiar a mesma resposta esboçada já por muita gente em vários países, e mostrar a semelhança entre o panorama da nossa sociedade nas primeiras décadas do século XX e agora, no começo do século XXI (conspiracionistas vão notar que também passaram-se mais ou menos 100 anos entre as duas maiores pandemias recentes, será que teve algum cometa nessas épocas? Sinais ocorrerão…). Resumindo, também acredito que a atual extrema-direita é apenas uma repaginação do mesmo fascismo que cresceu no início do século XX até dar no que deu. A união entre crises econômicas, niilismo social, uma sociedade em transição para a globalização (a aviação de repente encurtou drasticamente as distâncias), uma revolução de novas ideias científicas muito mal compreendidas pelo público leigo, o rádio e a televisão divulgando ideias com a velocidade da luz. Alguma semelhança com a nossa era de internet, mídia social, inteligência artificial e exploração espacial? É basicamente um caldo fervente pronto para explodir. E os estopins já estão acesos.
O mundo vai acabar? Respondo a essa com outra pergunta: o mundo acabou? E por aqui fico, que esse texto já está longo e é apenas um rascunho aleatório, para que conclusão? É supérfluo. Até o próximo!
Texto publicado no Substack de Baldolino Calvino.
